terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Mongolismos

Charles de Gaulle afirmou: o Brasil não é um país.
Carlos Alves de Souza, embaixador do Brasil em Paris, acrescenta: sério.
A frase e seu complemento são cabíveis.
Calharam. A sociedade brasileira adotou o lema como autodefinição.
Assim disse Annick T. Melsan, cientista política francesa.
Charles, Carlos e Annick não repararam nos sons chineses e japoneses.
Entonação, fala de arranco, quase gago; síncopes e contratempos!
Não pode ser sério.
Por mais esforço que faço.
São sim comediantes!

Abril de 2008.
Um tigre comeu um chinês.
Comida chinesa?
Não, o tigre comeu comida chinesa.
O chinês comeu o tigre?
Não, o chinês foi comido.
Ele comeu o tigre ou comida chinesa?
Não, ele foi comido pelo tigre.
Era doente mental e adorava tigre.
Então, o chinês comeu o tigre.
Essa não! O tigre comeu o chinês cara.
Ele entrou na jaula.
Quem, o tigre?
Não, o chinês.
Ah! Entendi. Eu ainda não.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Funes, o memorioso

Li no jornal Folha de São Paulo comentário sobre Borges. Um cineasta que não conheço escrevia especialmente para a Folha. Como sempre, a saturação pós-moderna impede o conhecimento do cineasta. Seu nome é Peter Greenaway. Nem sei se é brasileiro, inglês, americano, ou talvez, australiano, quem sabe? Tenho uma coleção com mais de setecentos DVD`s, vários diretores e atores e, simplesmente, do nada, aparece um nome de cineasta escrevendo em especial para a Folha. Um nome o qual nunca ouvi, nunca assisti e nunca li, mesmo com uma coleção enorme de filmes. Isso sim, é cultura saturada. Quantos cineastas haverá no mundo? No Brasil? Depois olhei no site da Livraria Cultura e me surpreendi com o fato de ter um de seus filmes: “O livro de cabeceira”, comprado recentemente, mas, que na verdade já havia assistido faz muito tempo. Há mais dois filmes dele lançados no Brasil: “A barriga do arquiteto” e “O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante”. Ainda, é um cineasta inglês. Incrível, não se consegue saber tudo. A cada dia nos surpreendemos com algo que deveríamos saber, deveríamos estar próximos devido ao convívio quase que permanente com os temas em questão. Mas, para irritar, aborrecer e encher o saco, tem sempre que aparecer algo novo, alguém desconhecido, algo desconhecido que deveríamos conhecer. Todos os cineastas deveriam ser Woody Allen, todos os escritores deveriam ser Borges, todos os pintores deveriam ser Renoir, todos os filósofos e matemáticos deveriam ser Descartes. O mundo está cheio demais, demasiadamente cheio, esgotado, saturado. Isso é extremamente irritante.

Volto ao Borges. Greenaway fica intrigado com o fato de Borges obter tanta profundidade em textos tão pequenos, duas ou três páginas apenas, talvez quatro. Mas, a observação mais importante é essa: para Borges não há história, há historiadores. O contexto e o sentido da frase podem variar. No conto “Funes, o memorioso” talvez tenhamos um dos sentidos: a história deve ser a história de todos os seres. O mapa do mundo no tamanho do próprio mundo que ele representa: não se quer representar o mundo e sim substituí-lo.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Nimiedades (4)

Maio de 1968. Briga de estudantes.
Adolescentes revoltados.
Birrentos.
Sartre na frente.
Heidegger não o recebeu: “não recebo jornalistas”.
Bem feito!
Primavera de Praga. (Não era primavera; começo de inverno: abril e maio).
Ditadura militar no Brasil e na América do Sul.
Movimento feminista.
Na televisão: Rin Tin Tin, Cabo Rusty. Yo ho Rinty! Forte Apache.
Apologia da cavalaria azul de fitinha e chapéu.
Filmes de índio e bandido. Caubói de chapéu e bota com espora. Invenção mais besta!
Lassie. Woodstock.
História?
Kant, ao tomar conhecimento da Revolução Francesa, exclamou:
Não atrapalhou minha caminhada!
Quieto e enclausurado em sua Königsberg.
Muito mais influenciou o mundo.

Há um torneio de futebol intitulado Libertadores da América.
Nunca entendi esse nome e essa obsessão com o nome liberdade.
Libertá-los de quê? Não há ninguém preso!
Dom Pedro libertou o Brasil.
A própria nação liberta sua colônia. Só mesmo Portugal!
Dom João brinca de rei e Portugal brinca de corte.

Depois do FIM de cada filme.
Letras e mais letras.
Nome até de quem esticou o cabo da câmara.
Em um livro, nome da editora e talvez da gráfica.
Onde se encontram os nomes dos operários da gráfica?

Dança com Lobos. Acredito ser um bom filme.
Na capa do estojo leio: óscar de melhor diretor.
Procuro então o seu nome.
Como sempre, a estupidez do publicitário permite o esquecimento.
No lugar do nome do autor premiado encontra-se a alcunha do ator:
Kevin Costner. Kevin Kline. Calvin Klein.
São todos cuequinhas?

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Brasucas

Hélio Oiticica - irmão e sobrinho-
Lamentam o incêndio.
Destruição do acervo.
Obra de arte guardada!
Em casa?

Diretas já.
Quero votar para presidente.
Caras-pintadas!
Impeachment já.

Multiculturalismo!
Invenção inteligente e sábia.
Expõe objetos culturais.
Sujeitos culturais apreciam.
Divertem-se com o exótico!

Tupi or not Tupi!
Ufanismo pouco inteligente.
Somos europeus.
América seria habitada por índios.
Todos analfabetos!
Não fosse Américo Vespúcio.
Por que América e não Américo?
Por que América e não Vespúcio?
O que seria a Europa se não fosse Roma?
A italianização da Europa!
O que seria Roma se não fosse a Grécia?
O início do mundo.
Estão vendo?
Somos todos, na verdade, gregos!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Emily Dickinson - Carta J498


(Foto: Elis Veiga)

Dear friend.

I cannot let the Grass come without remembering you, and half resent my rapid Feet, when they are not your's - The power to fly is sweet, though one defer the flying, as Liberty is Joy, though never used.

I give you half my Birds - upon the sweet condition that you will bring them back - yourself, and dwell a Day with me, and Bliss without a price, I earned myself of Nature -

Of whose electric Adjunct
Not anything is known -
Though it's unique Momentum
Inebriate our own.

Forgive me if I come too much - the time to live is frugal - and good as is a better earth, it will not quite be this.

How could I find the way to you and Mr Higginson without a Vane, or any Road?

They might not need me - yet they might -
I'll let my Heart be just in sight -
A smile so small as mine might be
Precisely their necessity -

Carta de Emily Dickinson endereçada à Senhora Mary Channing Higginson em 1877. Na ocasião a Senhora Higginson encontrava-se seriamente doente e viria a falecer alguns meses depois.

Este texto é um exemplo de como não escrever uma carta, de como não escrever uma prosa. Principalmente para uma pessoa adoentada e preste a morrer. O assunto é descabido e revela uma esquizofrenia patente. O destinatário e a própria carta são apenas pretextos para uma construção literária! Ao moribundo o que interessa uma escrita livresca, ambígua, lacunar e metafórica? Imagino a expressão indagativa da Senhora Higginson ao ler a carta! Verão que há escassez de preposições, conjunções e pronomes no texto. Ora, como uma prosa pode existir na ausência de conectivos? Barbaridade!

Vamos à tradução.

Cara amiga.

Não posso deixar sobrevir a relva sem me lembrar de você, e quase ressentir meus pés ligeiros quando não são os seus - O poder de voar é doce, entretanto procrastina-se o vôo, assim como Liberdade é Contentamento, entretanto nunca usada.

Eu te dou metade dos meus Pássaros - sobre a doce condição de que você os trará de volta - você mesma, e habitará um Dia comigo, e Alegria sem preço, eu mesma ganhei da Natureza -

Deste Acessório elétrico
Nada se conhece -
Embora seu único Momentum
Inebria nosso próprio.

Perdoe-me se eu venho com muita freqüência - o tempo de viver é frugal - e boa como é uma terra melhor, não será exatamente esta.

Como podia encontrar o caminho até você e o Senhor Higginson sem uma Grimpa, ou uma Rota (estrada, caminho)?

Podem não precisar de mim - por ora talvez não precisem -
Deixarei meu Coração bem à vista -
Um sorriso tão pequeno quanto o meu pode ser
Precisamente sua necessidade (a necessidade deles) -

Uma pieguice de menina colegial. Fala sentimental afetada, adolescência perpétua das fêmeas. Emoção exagerada e descabida, fora de proporção. Um texto de mulherzinha! Metáforas esdrúxulas com uma sintaxe que não se livrou da forma poética. Será que a autora não teve aula de produção de texto? Provoca inevitavelmente reações misóginas.

Cabe agora comentar as estranhezas do texto.

I cannot let the Grass come without remembering you, and half resent my rapid Feet, when they are not your's -”

Metáfora infantil e piegas. Extremo descabimento ao utilizar a palavra “half” no lugar de “almost”.

The power to fly is sweet, though one defer the flying, as Liberty is Joy, though never used.”

Bela forma poética que traduz concepções existenciais relevantes. Porém, a frase se atrapalha ao usar repetitivamente a conjunção “though” e a conjunção “as” ligando duas sentenças que já contêm cada uma delas, conjunção adversativa. Como disse antes, uma prosa que não se livrou da forma poética. O que temos então? Uma construção capenga e de mau gosto. Há um erro gramatical na conjugação do verbo “to defer”: “one defer the flying”; o sujeito é um pronome no singular, a saber, “one”; logo, o verbo deveria ser conjugado na terceira pessoa do singular, ou seja, “one defers the flying”. A idéia de um plural semântico não é descartável, mas plural semântico retrata pobreza intelectual: “people are”, “a gente fomos” etc.. Não existe semântica sem sintaxe; o pensamento é sintaxe e tudo que contraria isso não passa de emoção delirante. Por último, as duas frases estão completamente desconectadas, dois pensamentos jogados no texto e inapropriadamente ligados por um ridículo travessão.

I give you half my Birds - upon the sweet condition that you will bring them back - yourself, and dwell a Day with me, and Bliss without a price, I earned myself of Nature

O final da frase é embolado e faltam conectivos para a sintaxe funcionar, caso contrário fica parecendo língua de índio como podemos notar na tradução feita. Na expressão “without a price” não cabe de forma alguma o artigo indefinido “a”. Deveria ser: “without price”.

Of whose electric Adjunct
Not anything is known -
Though it's unique Momentum
Inebriate our own.

Reparem no termo “of whose” e na denominação “electric Adjunct”. O primeiro simplesmente não existe e foi substituído por “of this” como aparece em outras versões do poema. O segundo: quem em sã consciência chamará um relâmpago de “acessório elétrico”? Além disso, o apelo ao mistério reflete ignorância interiorana, visto que, o iluminista Benjamin Franklin já desvendara as crendices medievais com relação ás descargas elétricas no século 18, cerca de cem anos antes dessa carta. Outro erro gramatical de concordância verbal e um viracento sem sentido: “it’s unique momentum inebriate our own”. O sujeito “it’s unique momemtum” está no singular e o verbo “to inebriate” está no plural. Deveria ser: “it’s unique momentum inebriates our own”. O pronome possessivo é "its", não há apóstrofo! Credo. O poema foi simplesmente enxertado no texto sem a mínima conexão com os outros parágrafos. Total esquizofrenia!

Forgive me if I come too much - the time to live is frugal - and good as is a better earth, it will not quite be this.”

A primeira sentença é uma tremenda cacofonia semântica. Não sei como uma moça pode escrever uma coisa dessas para uma senhora moribunda. A terceira frase é simplesmente um amontoado de palavras tentando dizer algo, as classes gramaticais não se ajustam e a sintaxe se esvazia. Com isso o sentido fica louco. Quem escreve uma frase dessas certamente tem problema de cabeça! Possivelmente faltam modos subjuntivos e conexões apropriadas. Não estou disposto a descobri-las e fazer o trabalho do autor que deveria saber produzir um texto e usar corretamente a gramática.

O poema final, no entanto, é belíssimo e compensa todo o texto anterior. Deve ser lido separadamente da carta, que na verdade não é uma carta, é um mosaico de poemas e semipoemas completamente desarticulados.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Emily Dickinson - Poema F1425 (J1391)

(Foto: Elis Veiga)

They might not need me - yet they might -
I’ll let my Heart be just in sight -
A smile so small as mine might be
Precisely their necessity -

Versos escritos por Emily Dickinson ao concluir uma carta enviada à Senhora Mary Channing Higginson cujo estado de saúde piorara. Emily termina a carta com a seguinte interrogação:

How could I find The way to you and Mr Higginson without a Vane, or any Road?

Após a indagação seguem os versos do poema.

Importante notar que o poema apresenta uma sonoridade que pretende fazer parte da estética. São rimas e aliterações; dois conceitos que não se distinguem um do outro. Se alguma diferença houver, ela será inevitavelmente irrelevante. Sabiam que há pelo menos uma dúzia de tipos de rimas? Isso mostra o descabimento de um academicismo exacerbado, pedante e completamente inócuo. Classificam zebras pela espessura ou textura de suas listras!

might, might, sight”; “smile, mine, might”; “be, necessity”; “yet, let”; “mine, precisely”.

A fônica certamente integra a arte poética, mas de forma alguma é a sua essência a qual funda-se na expressividade com contenção. Rimas, métricas e aliterações são elementos periféricos, adereços. Portanto, a perda quase inevitável de combinações sonoras em uma tradução não impede a apreensão plena do poema.

Podem não precisar de mim - por ora talvez não precisem -
Deixarei meu Coração bem à vista -
Um sorriso tão pequeno quanto o meu pode ser
Precisamente sua necessidade -

Ou então:

Podem não precisar de mim - por ora talvez não precisem -
Deixarei meu Coração bem à vista -
Um sorriso tão pequeno quanto o meu, pode ser
Precisamente, a necessidade deles -

A frase interrogativa:

Como podia encontrar o caminho até você e seu marido sem uma grimpa ou uma rota (estrada, caminho)?

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Classe média

Uma propaganda de carros mostra dois homens jogando tênis. Ambos têm por volta de 35 anos e representam uma classe média que acha que é rica. Basta ver a cena dos dois jogando tênis, coisa que ninguém joga. É como o trocador de ônibus: seu sonho é ser o motorista. Cada vez que um fala que comprou um carro (da Ford) e das condições de pagamentos, o outro sente uma pontada dolorida no cotovelo. A incongruência é total, pois mostra dois homens jogando tênis, ou seja, supostamente ricos, e ao mesmo tempo felizes pelas condições de pagamento parcelado, com vantagens, tornando o sonho do carro possível. Ora, quem é rico, quem joga tênis, certamente não está preocupado com parcelamentos ou prestações na compra de um mero automóvel, ainda mais sendo da Ford. Temos então o que falei antes: trocadores de ônibus com sonho de serem motoristas. Enquanto não são, brincam de motoristas com as pequenas ajudas totalmente dispensáveis: batem moedas nos canos de suporte para avisar que os passageiros já acabaram de entrar ou sair, e que, o motorista pode arrancar.